ÁFRICA BERÇO DA HUMANIDADE
A mais marcante das
singularidades africanas é o fato de seus povos autóctones terem sido os
progenitores de todas as populações humanas do planeta, o que faz do continente
africano o berço único da espécie humana.
O continente africano, palco
exclusivo dos processos interligados de humanização e de sapienização, é o
único lugar do mundo onde se encontram, em perfeita seqüência geológica, e
acompanhados pelas indústrias líticas ou metalúrgicas correspondentes, todos os
indícios da evolução da nossa espécie a partir dos primeiros ancestrais
hominídeos. A humanidade, antiga e moderna, desenvolveu-se primeiro na África e
logo, progressivamente e por levas sucessivas, foi povoando o planeta inteiro.
Pela tradição, eurocêntrica e
hegemônica, costuma alinhar o fato histórico com a aparição, recente, da
expressão escrita, criando os infelizes conceitos de povos “com história” e de
povos “sem história” que, eventualmente, o etnólogo Lucien LEVY-BRUHL iria
transformar em “povos lógicos” e “povos pré-lógicos”(9). Mas a história
propriamente dita é a interação consciente entre a humanidade e a natureza, por
uma parte, e dos seres humanos entre si, por outra. Por conseguinte, a aparição
da humanidade como espécie diferenciada no reino animal, abre o período
histórico. O termo “pré-história”, tão abusivamente utilizado pelos
especialistas das disciplinas humanas, é uma dessas criações que doravante
deverá ser utilizada com maior circunspeção.
Hoje sabemos que há quase dois
milhões de anos, o Homo erectus, hominídeo autor de importantes avanços na
manufatura de implementos como o machado, saiu da África em ondas migratórias
rumo à Ásia e à Europa, assim iniciando o povoamento do mundo.
O homem moderno (Homo sapiens
sapiens) também evoluiu na África e de lá saiu, há mais ou menos 150 mil anos,
em uma segunda fase de ondas migratórias através da Eurásia. Ao espalharem-se
pela Eurásia, os humanos que saíram do continente africano deram início a um
processo de intercâmbios genéticos o qual não cessou até hoje.
Esse intercâmbio resultou no
aparecimento de características novas às populações locais. Concluímos aqui que
os seres humanos pertencem todos à mesma espécie, e que eles evoluíram de uma
ancestralidade comum iniciada na África.
A África, ao contrário do que
se imagina por falta de informações, tem sido palco de alguns dos maiores
avanços tecnológico da história: seja na prática agrícola, na criação de gado,
na mineração, na arquitetura e na engenharia, com construções de grandes
centros urbanos, e ainda na sofisticação da organização política, na prática da
medicina e no avanço do conhecimento e da reflexão intelectual.
E a imagem que temos da África
é a de um continente sem história. Sabemos hoje que os povos africanos já
navegavam os mares à procura da rota para as índias milênios antes das
caravelas portuguesas e espanholas.
Luciana Avezum Martus